Dicionário Histórico-Biográfico da Academia das Ciências de Lisboa

Pesquisa Avançada

Ferreira Luís Feliciano Marrecas Évora Lisboa Engenheiro militar, lente da Escola do Exército e do Instituto Industrial e Comercial de Lisboa, tenente-coronel do Corpo de Engenheiros. Sócio efectivo da Classe de Ciências Matemáticas, Físicas e Naturais. Luís Feliciano Marrecas Ferreira.png Luís Feliciano Marrecas Ferreira (1851-1928) in Correia, “Prof. Luís Feliciano Marrecas Ferreira”, Revista do Instituto Superior do Comércio, IX, 1923. ASS_Luís Feliciano Marrecas Ferreira.jpg

Era o terceiro de quatro filhos de Francisco António Ferreira, cirurgião do Exército, natural de Pousaflores, Leiria, e Feliciana Jerónima Marrecas Ferreira, natural de Évora.

Estudou no Real Colégio Militar, onde ingressou aos treze anos e, concluído o curso em 1864, iniciou a carreira militar. Em 1875, completou o Curso de Engenharia Militar da Escola do Exército. Como condição obrigatória para essa formação frequentou, na Escola Politécnica, o Curso preparatório para Engenheiros Militares, de 1868 a 1872, onde obteve formação científica em ciências físico-matemáticas e filosofia natural. Nessa instituição foi julgado aluno distinto no primeiro ano do curso, em cadeiras de matemática e física.

Iniciou o professorado na Escola do Exército em 1880, assumindo a regência de cadeiras na área de construção. Em 1884, tornou-se lente da cadeira Resistência Aplicada, Pontes, permanecendo com essa responsabilidade até 1914, quando sai da instituição. Em 1910 abandonara a carreira militar, tornando-se lente civil.

No Instituto Industrial e Comercial de Lisboa (IICL) foi nomeado lente proprietário da cadeira Operações Financeiras, por concurso, em 1886. Nessa nova cadeira do Curso Superior de Comércio principiava o ensino de assuntos de actuariado em Portugal. Em 1903, sucedeu-lhe na cátedra o comercialista Augusto Patrício dos Prazeres e passa, então, a reger a cadeira Álgebra Superior, Geometria Analítica, Cálculo Infinitesimal. Foi o primeiro diretor da instituição sucessora do IICL, o Instituto Superior de Comércio (ISC) e aí continuou com a regência de cadeiras de matemáticas – Cálculo Infinitesimal e de Probabilidades; e Estatística. Aposentou-se com 72 anos, em 1923.

A par da carreira de magistério, exerceu, desde 1887, funções como engenheiro das obras públicas.

Na carreira militar, atingiu o posto de tenente-coronel de Engenharia, em 1895, passando à reserva em 1902.

Na ACL foi eleito sócio correspondente da Classe de Ciências Matemáticas, Físicas e Naturais, a 1 de abril de 1880. O parecer, da secção de Ciências Matemáticas, favorável à sua nomeação, elenca os textos publicados, maioritariamente em geometria, “muito apreciáveis e interessantes”, que lhe conferem reputação de “talentoso e infatigável cultor” das ciências matemáticas. Nele, é referido o artigo que Marrecas Ferreira publicou no Jornal de Sciencias Mathematicas, Physicas e Naturaes (1878), uma “nota bastante extensa e interessante”, destacado pelo “rigor da dedução” e “originalidade das conclusões”. Os restantes textos apreciados no parecer haviam sido publicados no recente Jornal de Sciencias Mathematicas e Astronómicas, de Francisco Gomes Teixeira, fundado em 1877. A 16 de março de 1905 foi eleito sócio efetivo, integrando a 1.ª secção, de Ciências Matemáticas, da Classe de Ciências Matemáticas, Físicas e Naturais. O respetivo parecer, também assinado pelos membros da secção de Ciências Matemáticas, classifica como “importantes e notórios” os seus trabalhos em matemáticas e no professorado, sem mais destaque. Do seu processo académico, consta ainda que foi eleito para o Conselho Administrativo, por diversas vezes, entre 1909 e 1919.

Segundo o catálogo Les mathématiques en Portugal (1909), de Rodolfo Guimarães, a produção científica de Marrecas Ferreira distribui-se pelas três classes Análise matemática, Geometria e Matemáticas aplicadas. São textos que abarcam assuntos diversos de ciências matemáticas. Nas duas primeiras classes, teoria das equações, funções de variável real, análise combinatória e pensões vitalícias; cones, construções, duplicação do cubo, geometria descritiva, cónicas, quádricas e geometria no espaço. Em Matemáticas aplicadas, são elencados, no mesmo catálogo, 11 textos sobre estática, hidráulica, elasticidade, geodesia, cálculo gráfico e história das ciências matemáticas. De referir, ainda, que a sua atividade enquanto engenheiro de obras públicas deu origem a relatórios diversos publicados no Boletim do trabalho industrial, uma publicação oficial.

Na área do actuariado tem apenas um texto publicado, a tese elaborada para concurso ao lugar de lente da cadeira Operações financeiras do IICL, de seu título Estudo sobre Monte-Pios (1886). Aí aborda questões relativas aos planos de pensões dos montepios de sobrevivência, com especial enfoque no Montepio Geral (MPG), a mais próspera instituição do género, e no Montepio Oficial dos Servidores do Estado. Um estudo importante do ponto de vista da procura de soluções para os problemas ao nível da fundamentação científica dos planos de pensões de sobrevivência, que comprometiam a viabilidade financeira das instituições. No MPG, tais problemas já eram conhecidos desde a década de 1860. Relevância que sai reforçada pelo inegável papel dessas instituições ao nível da proteção social. Marrecas Ferreira foi sócio do MPG e, seguindo a prática dessas instituições mutualistas, integrou comissões de estudo diversas, em prol de bem comum. Essa participação ilustra as dificuldades que se foram observando na reforma do plano de pensões até à década de 1920, não só pelas dúvidas quanto às bases científicas a adotar, mas também pela relutância da grande maioria dos sócios em aceitar alterações à assistência subscrita e, portanto, prometida pela instituição. Em 1886, no âmbito de uma comissão incumbida de se pronunciar sobre o relatório da comissão financeira, aferiu a instabilidade financeira da instituição, reconhecendo-se, no entanto, a transcendência na definição de alternativas ao plano de pensões. Em 1900, junto com Prazeres, analisou a possibilidade de reforma dos estatutos, sendo ambos julgados de “terroristas”, por preverem o rateio das pensões. E, cerca de uma década depois, colaborou com Prazeres e o matemático e actuário António dos Santos Lucas, no estudo das reservas matemáticas. Dada a complexidade do assunto e morosa análise de dados, propuseram a nomeação de um actuário, pedido que, no imediato, não foi atendido. Em 1917, seria estabelecida a secção de Actuariado no MPG, se bem que reduzida a um indivíduo, Caetano Maria Beirão da Veiga, comercialista, actuário e professor do ISC.

Ainda na temática de actuariado, é de notar o contributo de Marrecas Ferreira ao nível da regulamentação da indústria dos seguros, a par com Prazeres. Segundo Beirão da Veiga (1933), desses “ilustres cultores da ciência actuarial” é “a obra inicial de toda a nossa legislação técnica de seguros e de previdência”.

A Associação de Actuários Portugueses (AAP), criada em 1926, foi a primeira associação profissional nacional de actuários e Marrecas Ferreira, já professor aposentado do ISC, faz parte da lista de sócios fundadores. No entanto, a AAP teve uma existência efémera; em meados de 1930 já havia sido extinta. O atual Instituto dos Atuários Portugueses, fundado em 1945, é considerado seu sucessor.

Marrecas Ferreira pertenceu à Sociedade de Geografia de Lisboa, destacando-se o envolvimento na primeira expedição científica à Serra da Estrela, em 1881. Ficou responsável pela Secção de Etnografia, sendo da sua autoria o respetivo relatório de trabalhos publicado em 1883, e fez parte da Secção de Hidrografia, bem como da Comissão Administrativa. Foi também sócio correspondente do Instituto de Coimbra.

Dos cargos assumidos em instituições diversas, identificam-se o de presidente da Associação dos Engenheiros Civis Portugueses, vice-presidente da Sociedade Histórica da Independência de Portugal e vice-presidente da Sociedade Portuguesa da Cruz Vermelha. No mundo da política, pertenceu ao efémero movimento da Esquerda Dinástica.

Foi agraciado com diversas ordens. Em 1886, cavaleiro e oficial da Antiga, Nobilíssima e esclarecida Ordem de S. Tiago, do mérito científico, literário e artístico, em 1888, comendador e cavaleiro da Ordem Militar de S. Bento de Aviz, e comendador da Ordem da Coroa de Itália. Recebeu a medalha militar de prata, de comportamento exemplar, em 1889.

Faleceu em Lisboa, com 76 anos.

“Sobre um problema de Geometria”, Jornal de Sciencias Mathematicas e Astronómicas, n.º 1, 1877, pp. 102-104; “Sobre um problema de Geometria”, Jornal de Sciencias Mathematicas e Astronómicas, n.º 1, 1877, pp.133-137; “Sobre a questão proposta n.º 11”, Jornal de Sciencias Mathematicas e Astronómicas, n.º 2, 1878, pp. 50-53; “Sobre a questão proposta n.º 13”, Jornal de Sciencias Mathematicas e Astronómicas, n.º 2, 1878, pp. 126-129; “Sobre um problema”, Jornal de Sciencias Mathematicas e Astronómicas, n.º 2, 1878, pp. 165-166; “Algumas propriedades das superfícies”, Jornal de Sciencias Mathematicas, Physicas e Naturaes, n.º 23, 1878, pp. 175-182; “Sobre um problema de Geometria”, Jornal de Sciencias Mathematicas e Astronómicas, n.º 3, 1881, pp. 7-15; “Confronto entre as curvas circulares e parabólicas empregadas na concordância dos alinhamentos das vias de comunicação, feito sob o ponto de vista dos raios de curvatura que lhes correspondem”, Revista da Obras Públicas e Minas, XII, 1881, pp. 113-128; “Sobre o problema da duplicação do cubo”, Revista scientifica, I, 1885, pp. 65-69; Estudo sobre Monte-Pios. Dissertação para o concurso da cadeira de Operações Financeiras do Instituto Industrial e Commercial de Lisboa, Lisboa, Typographia da Viúva Sousa Neves, 1886; “Sobre a theoria do hyperboloide”, Jornal de Sciencias Mathematicas e Astronómicas, n.º 7, 1886, pp. 49-7; Funcções e equações numéricas, Lisboa, Secção Editorial da Companhia Nacional Editora, 1898; “Sobre a theoria das raízes conjugadas”, Jornal de Sciencias Mathematicas e Astronómicas, n.º 15, 1902, pp. 105-130. AHA – ACL, Processo académico, PT/ACL/ACL/C/001/1880-04-01/LFMF; AHA - ACL, Classe de Ciências, Pareceres, cx. 3A, mç. 2, n.º 38 [parecer para sócio correspondente]; AHA - ACL, Classe de Ciências, Pareceres, cx. 3A, mç. 5, n.º 34 [parecer para sócio efetivo]; Sede do Montepio Geral, Actas das assembleias gerais, livros 7, 8 e 9; VEIGA, Caetano Maria Beirão da, “O mutualismo e a ciência actuarial”, Economia e Finanças: anais do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras, vol. I, 1933, pp. 55–71; CORREIA, Francisco António, “Prof. Luís Feliciano Marrecas Ferreira”, Revista do Instituto Superior do Comércio, IX, 1923, pp. 235-238; GUIMARÃES, Rodolfo, Les mathématiques en Portugal, 2ème édition, Coimbre, Imprimerie de l’Université, 1909; MARTINS, Ana Patrícia. “Estudo sobre monte-pios, por Luiz Feliciano Marrecas Ferreira: uma primeira abordagem”, Boletim da SPM, 82 suplemento, 2024, pp. 21-24. Ana Patrícia Martins portuguesa correspondente Ciências Matemáticas, Físicas e Naturais Ciências Matemáticas sócio correspondente; efetivo: 16.3.1905.