Sobre a família de José Gomes Monteiro, lavradores proprietários e senhores da Casa de Pousada, em Santa Eulália de Barrosas, Felgueiras, sabe-se que migrou em distintos momentos para o Porto. Foram seus pais Francisco José Gomes Monteiro, um dos “principais e mais inteligentes negociantes da praça do Porto” (O Tripeiro... pág. 541) e D. Maria Angélica de Andrade, natural de Britelo, Celorico de Basto. Dos dois matrimónios paternos nasceram oito filhos, seis dos quais provenientes do segundo casamento com D. Maria Angélica, senhora que revelaria, após a morte do marido, uma assinalável capacidade administrativa dos recursos familiares e da fazenda empresarial.
José Gomes Monteiro começou por frequentar os cursos de Leis e Cânones na Universidade de Coimbra, que interrompeu quando frequentava o quarto ano. As perseguições políticas então empreendidas contra os estudantes liberais impeliram-no ao exílio londrino em 1828. Pela mesma altura, dá-se a expansão da casa comercial familiar “Fonseca, Monteiro e Guimarães” para Londres, em 1822, cidade onde se estabelece uma filial para apoiar os negócios de vinho do Porto, mas que rapidamente se diversifica para outros ramos de atividade. Transformar-se-ia “n´um dos principais pilares dos exilados liberais, contribuindo para a sua sobrevivência e para as despesas de compra de barcos para transporte de tropas e material militar.” (Gomes de Castro..., p. 38).
Em Londres, Gomes Monteiro privou com intelectuais de renome como [Almeida Garrett](https://dhb.acad-ciencias.pt/entrada/?id=JoaoBaptistadaSilvaLeitaodeAlmeidaGarrett), de quem se tornou amigo próximo e a quem sempre prestou auxílio, conforme ilustra a correspondência trocada com o poeta e editada por [Gomes de Amorim](https://dhb.acad-ciencias.pt/pesquisa/?word=Gomes+de+Amorim) (Garrett. Memórias Biográficas, Vol. I, a partir da p. 469, passim), tendo nomeadamente contribuído com versões de romances tradicionais minhotas que Garrett viria a incorporar no seu Romanceiro. Dois anos depois, transfere-se para Altona / Hamburgo, na Alemanha, para gerir uma casa comercial juntamente com o cônsul José Ribeiro dos Santos, a “Santos e Monteiro”. Regressa a Portugal, em 1835, estabelecendo-se no Porto, onde exerce o cargo de Recebedor da Fazenda do 2.º distrito fiscal da cidade, sendo de mencionar também a atividade política que passa a desempenhar como deputado da nação durante duas legislaturas.
Certo é que o exílio alemão lhe havia proporcionado um franco enriquecimento cultural e, em particular, literário. Em Hamburgo publicaria, em 1834, uma obra de capital importância para a divulgação do património literário português, juntamente com Vitorino Barreto Feio, as Obras de Gil Vicente, a partir de um testemunho do século XVI encontrado na Biblioteca da Universidade de Gotinga. É esta edição que vem reabilitar e redescobrir a obra do pai do teatro português, até então esquecida, da qual sobressai a elevada qualidade do ensaio biográfico-crítico do dramaturgo quinhentista, que terá sido da exclusiva autoria do bibliófilo portuense. É também da responsabilidade da mesma dupla de editores uma fixação crítica das obras de Camões, de 1843, louvada pela crítica, “ainda hoje muito superior em lição à do [visconde de Juromenha]”, segundo palavras de [Teófilo Braga](https://dhb.acad-ciencias.pt/pesquisa/?word=Te%C3%B3filo+Braga), em 1864, (“José Gomes Monteiro. Carta ao proprietário da ‘Revista Contemporânea’”, p. 239).
A proverbial discrição e humildade com que Gomes Monteiro sempre encarou tanto o seu perfil intelectual como a investigação por si produzida prejudicaram francamente a sua atividade como investigador no campo das letras lusas, facto que se traduziu no impacto diminuto do seu trabalho. Tendo-se lançado na empresa de escrever a História Literária de Portugal, esta não chegaria, contudo, a termo, embora lhe tivesse sido concedido o estímulo para tal, em reconhecimento da capacidade única em Portugal para levar a cabo semelhante empresa, segundo apontaram não só [Camilo Castelo Branco](https://dhb.acad-ciencias.pt/pesquisa/?word=Camilo+Castelo+Branco) como também [Inocêncio Francisco da Silva](https://dhb.acad-ciencias.pt/pesquisa/?word=Inoc%C3%AAncio+Francisco+da+Silva) (Dicionário..., pág. 363).
Nos trabalhos dados à estampa contam-se os Ecos da Lira Teutónica (1848), antologia poética que verte para português composições de Lessing, Goethe e Schiller, à parte de poemas românticos alemães, como Uhland , Heine, Chamisso, Ruckert, Arndt; inclui ainda nesta obra versões portuguesas da poesia dinamarquesa (com destaque para a tradução do poemeto Camões de Staffeldt, bem como uma resenha de todas as traduções impressas dos Lusíadas e outras obras estrageiras consagradas a Camões, poeta de quem Gomes Monteiro foi um grande aficionado). De 1849 data a Carta ao Ill.mo Sr. Tomás Norton sobre a situação da ilha de Vénus, na qual defende Camões de algumas críticas de Alexander von Humbolt. De resto, Gomes Monteiro limitou-se a divulgar alguns artigos publicados em jornais políticos e literários do Porto, sem grande impacto no meio literário nacional. Mais tarde, como sócio-gerente da livraria Moré, instalada na mesma cidade, dedica-se sobretudo à atividade editorial, publicando obras de novos autores e traduções de estrangeiros como a célebre versão para português do Fausto de Goethe levada a cabo por [António Feliciano de Castilho](https://dhb.acad-ciencias.pt/entrada/?id=AntonioFelicianodeCastilho), a qual esteve na origem da “Questão do Fausto” e na qual Gomes Monteiro participou publicamente na imprensa em favor de Castilho. O cômputo de trabalhos de grande fôlego, prometidos, mas nunca publicados, é de monta. Entre eles, encontra-se um estudo sobre a autoria do Amadis de Gaula, uma edição de Menina e Moça, um trabalho acerca de Sá de Miranda, outro sobre a Diana de Jorge de Montemor, ou ainda a descrição de manuscritos como a Corte imperial ou a Arte de Monteria de D. João I. A constatação do tanto que terá ficado por concretizar levaria Teófilo Braga a proclamar a superioridade intelectual de Gomes Monteiro, em 1864, do seguinte modo: “A renascença em Portugal deve-se a três homens, Garrett, Alexandre Herculano, e José Gomes Monteiro. A falta de ambições, a despreocupação de si, uma abnegação quási indesculpável, fizeram com que o restaurador de Gil Vicente não atirasse à luz a sequência das suas explorações; não veio tomar a parte que lhe competia na auréola de glória que cinge os nossos dois maiores cultos literários.” (“José Gomes Monteiro. Carta ao proprietário da 'Revista Contemporânea'”..., p. 237). Consta que grande parte da obra inédita do intelectual terá desaparecido num incêndio deflagrado na sua própria biblioteca, quando o seu corpo ali se encontrava depositado.
Na ACL, como reconhecimento pelo perfil extraordinário de amante e estudioso das letras portuguesas, foi eleito associado provincial em sessão da classe de Ciências Morais, Políticas e Belas Letras de 24 de novembro de 1853, tendo passado a sócio correspondente dessa classe a 27 de julho de 1861.