Dicionário Histórico-Biográfico da Academia das Ciências de Lisboa

Pesquisa Avançada

Mariz Júnior Joaquim de Coimbra Coimbra Médico, naturalista, desenhador e gravador. Sócio correspondente da Classe de Ciências Matemáticas, Físicas e Naturais. Joaquim de Mariz Júnior.png Joaquim Mariz Júnior (1847 – 1916), Photographia Conimbricense, de José Maria dos Santos, década de 1890 (?), in Biblioteca Digital de Botânica, https://almamater.uc.pt/bibbotanica/item/47051 (Acesso: 17.4.2026). ASS_Joaquim de Mariz Júnior.jpg

Era filho de Joaquim de Mariz, ourives, e de D. Maria José da Costa Pinto, naturais de Anadia. Casou com Maria da Piedade Canaes de Campos Vieira e foram pais de seis filhos: Maria José, Joaquim, Maria Isabel, Maria Teresa, Maria Luísa e Maria da Conceição.

Matriculou-se na Universidade de Coimbra em 1869, inscrevendo-se nas Faculdades de Matemática e de Filosofia Natural. Concluiu o bacharelato em Filosofia no ano letivo 1872-1873, tendo frequentado, no 1.º ano, a Aula de Desenho. Prosseguiu os estudos na Faculdade de Medicina (como era frequente na época), com a 1.ª matrícula no ano letivo de 1873-1874 e a última no ano letivo de 1877-1878. Exerceu atividade clínica durante pouco tempo, mas em 1879 prestou provas para o lugar de naturalista adjunto à cadeira de Botânica da Universidade de Coimbra, cargo para o qual foi nomeado e que ocupou até à sua morte, em 1916. Cedo revelou os seus dotes artísticos e destacou-se como desenhador e gravador, mostrando interesse principalmente pelo património arquitetónico da cidade de Coimbra.

Foi colaborador artístico do escritor e antiquário Augusto Mendes Simões de Castro (1845-1932), que lhe reconheceu o talento para o desenho. Desenhos e gravuras de sua autoria ilustram artigos de Simões de Castro publicados na revista Archivo Pittoresco e encontram-se em quase todos os 12 fascículos da revista mensal Portugal Pittoresco, fundada por Simões de Castro, publicada durante o ano de 1879 e editada pela Imprensa da Universidade de Coimbra. Além de uma vista da cidade de Coimbra, encontram-se desenhos de diversos monumentos conimbricenses, da estufa do Jardim Botânico da Universidade e do Bussaco. Os livros Guia Histórico do Viajante no Bussaco (1875), o Guia Histórico do Viajante em Coimbra e arredores (1880) e o Elucidário e Guia Histórico do Viajante no Bussaco (edições de 1883 e 1921) de Simões de Castro contam também com desenhos seus.

Augusto Filipe Simões (1835-1884), no seu livro Relíquias da Architectura Romano-Byzantina em Portugal e particularmente na cidade de Coimbra, de 1870, publicou os desenhos dos capitéis da Igreja de S. Cristóvão (já demolida à época) da autoria do jovem J. Mariz que descreve como “fervoroso devoto das coisas da nossa terra”. Em artigo intitulado “Mariz, desenhador e gravador coimbrão” (1943), Soares da Graça, seu genro, refere que embora a maior parte dos desenhos tivesse sido publicada, existiam alguns inéditos na posse da família – informação que não foi possível confirmar.

Durante 37 anos, Joaquim de Mariz foi um valioso colaborador do professor de Botânica Júlio Augusto Henriques, diretor do Jardim Botânico e grande impulsionador do Herbário da UC (1873-1918), à época alojado no mesmo espaço que ocupa ainda hoje, no colégio de S. Bento, sede atual do Departamento de Ciências da Vida. Joaquim de Mariz morou no colégio de S. Bento cujo primeiro andar estava reservado para residência do pessoal superior (diretor, naturalista e jardineiro-chefe) do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra.

Ao longo dos anos, Joaquim de Mariz fez a revisão da maior parte dos exemplares do Herbário da UC, trabalho que deu origem aos numerosos artigos publicados no Boletim da Sociedade Broteriana, entre 1884 e 1909, numa série intitulada “Subsídios para o estudo da flora portugueza” (cada artigo consagrado a uma ou mais famílias de plantas com flor). Procedeu também à organização de numerosas centúrias (colecções de 100 exemplares que eram enviados para instituições congéneres) e à identificação das plantas colhidas e enviadas pelos sócios da Sociedade Broteriana quer para o Herbário, quer para serem distribuídas por outros sócios. Foi, essencialmente, um naturalista de gabinete, pois todo este considerável trabalho de taxonomia (identificação de plantas, descrição de espécies novas e revisão dos exemplares de herbário) obrigava à permanência na Universidade. Ainda assim, Joaquim de Mariz também colheu exemplares para o Herbário, mormente em Trás-os-Montes.

A flora transmontana estava pouco estudada, em território montanhoso com dificuldades de circulação e com deficientes, ou inexistentes, vias de comunicação. Apenas o conde de Hoffmansegg tinha percorrido a região, no início do século XIX, com o objetivo de realizar estudos botânicos. Por isso, com o aval de Júlio Henriques, Mariz acompanhou as visitas pastorais de seu irmão mais velho – D. José de Mariz, 36.º bispo de Bragança – por diversos distritos eclesiásticos, com o objetivo de estudar a flora da região. Em maio de 1887, reuniu-se à comitiva do irmão em Torre de Moncorvo e no ano seguinte, durante todo o mês de junho, acompanhou a visita pastoral pelos distritos eclesiásticos de Miranda do Douro e de Vimioso. Os resultados da colheita das plantas transmontanas, incluindo um catálogo e a descrição das duas viagens, foram publicados no Boletim da Sociedade Broteriana (1.ª série, vol. VII). A leitura destes relatos revela, simultaneamente, o naturalista que descrevia os locais e os habitats de colheita de cada planta, e o artista que, em cada localidade, observava e registava os aspetos histórico-artísticos dos monumentos mais relevantes.

Soares da Graça (1943) refere que, após concluídos os cursos universitários de Medicina e Filosofia, Mariz nunca mais desenhou por recreação. No entanto, durante a sua longa carreira de naturalista, desenhou algumas plantas, nomeadamente para ilustrar descrições de espécies novas para a ciência, como, por exemplo, Melandrium viscosum Mariz e Anemone albida Mariz.

No Arquivo de Botânica da Universidade de Coimbra, salvaguardado no Departamento de Ciências da Vida da mesma universidade, encontra-se correspondência recebida por Joaquim de Mariz Júnior, de 17 correspondentes, nacionais e estrangeiros. Na sua grande maioria, o tema das missivas é taxonomia botânica: pedidos de identificação de plantas portuguesas e africanas. Entre os correspondentes destacam-se, pelo número de missivas, Jules Daveau (32) e os professores de botânica António Xavier Pereira Coutinho (22), da Escola Politécnica de Lisboa, e Gonçalo Sampaio (26), da Academia Politécnica do Porto, com quem se correspondeu regularmente ao longo de muitos anos. Aliás, Pereira Coutinho e Gonçalo Sampaio homenagearam Joaquim de Mariz com a atribuição do restritivo específico marizii a algumas espécies que descreveram, como, por exemplo, Dianthus marizii Samp.

Joaquim de Mariz colaborou, desde o início, com a Sociedade Broteriana, a primeira sociedade científica de botânica em Portugal fundada por Júlio Henriques em 1880. Foi sócio efetivo do Instituto de Coimbra desde 1884. A 21 de abril de 1897 foi eleito sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa, na classe de Ciências Matemáticas, Físicas e Naturais.

“Subsidios para o estudo da flora portugueza”, Boletim da Sociedade Broteriana, II, 1884, pp. 58-123; “Idem II. Cruciferae”, Boletim da Sociedade Broteriana, III, 1885, pp. 72-109; “Idem III”, Boletim da Sociedade Broteriana, IV, 1886, pp. 81-112; “Idem IV”, Boletim da Sociedade Broteriana, V, 1887, pp. 85-131; “Idem V”, Boletim da Sociedade Broteriana, VI, 1888, pp. 16-44; “Uma excursão botânica em Traz os Montes”, Boletim da Sociedade Broteriana, VII, 1889, pp. 3-34; “Outra excursão botânica na mesma provincia”, Boletim da Sociedade Broteriana, VII, 1889, pp. 35-76; “Subsidios para o estudo da flora portugueza VI”, Boletim da Sociedade Broteriana, VIII, 1890, pp. 159-172; “Idem (Compositae L.)”, Boletim da Sociedade Broteriana, IX, 1891, pp. 144-243; “Idem (Compositae L. continuação)”, Boletim da Sociedade Broteriana, X, 1892, pp. 196-243; “Idem (Compositae L. continuação)”, Boletim da Sociedade Broteriana, XI, 1893, pp. 132-209; “Idem. As Umbeliferas”, Boletim da Sociedade Broteriana, XII, 1895, pp. 171-256; “Idem – Polygonaceae”, Boletim da Sociedade Broteriana, XIII, 1896, pp. 176-201; “Idem – Chenopodiaceas – Amarantaceas”, Boletim da Sociedade Broteriana, XIV, 1897, pp. 175-208; “Idem– Valerianeas, Dipsaceas e Ambrosiaceas de Portugal”, Boletim da Sociedade Broteriana, XV, 1898, pp. 175-205; “Idem. Gentianaceas”, Boletim da Sociedade Broteriana, XVI, 1899, pp. 156-195; “Idem. Convolvulaceas – Cuscuteas – Solanaceas”, Boletim da Sociedade Broteriana, XVII, 1900, pp. 164-195; “Idem – Caprifoliaceas – Vacciniaceas – Ericineas”, Boletim da Sociedade Broteriana, XVIII, 1901, pp. 80- 125; “Nota acerca de um Anagallis de Mathosinhos”, Boletim da Sociedade Broteriana, XIX, 1902, pp. 153- 156; “Subsidios para o estudo da flora portugueza. Suplemento às Crassulaceas”, Boletim da Sociedade Broteriana, XX, 1903, pp. 184-199; “Idem – As Verbasceas”, Boletim da Sociedade Broteriana, XXIII, 1907, pp. 23-50; “Additamento às Verbasceas portuguezas”, Boletim da Sociedade Broteriana, XXIV, 1908-1909, pp. 133-135. AHA – ACL, Processo académico, PT/ACL/ACL/C/001/1897-04-21/JMJ; Arquivo de Botânica da Universidade de Coimbra, Correspondência recebida de Joaquim de Mariz (1886-1908), Biblioteca Digital de Botânica, https://tinyurl.com/34jeek65; AUC, Arquivo da Universidade de Coimbra, Índice de alunos, Joaquim de Mariz Júnior, PT/AUC/ELU/UC-AUC/B/001-001/M/003267; CARRISSO, L. W., “Extracto do Discurso Pronunciado pelo Exm.º Sr. Dr. Luís Carrisso”, O Instituto, LXXII, 1925, pp. 248-262; CASTRO, A. M. Simões de, Guia Histórico do Viajante em Coimbra e arredores, Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 1867; CASTRO, A. M. Simões de, Guia Histórico do Viajante no Bussaco, Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 1875 [1883, 1896, 1908]; Idem, Elucidário e Guia Histórico do Viajante no Bussaco, edições de 1883 e 1921; FERREIRA, Licínia R., Sócios do Instituto de Coimbra (1852-1978), Coimbra, Projecto Instituto de Coimbra/Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 2015; GRAÇA, Soares da, “Mariz, desenhador e gravador coimbrão”, O Instituto, 101, 1943, pp. 433-444; HENRIQUES, Júlio A., “Dr. Joaquim de Mariz Júnior”, Boletim da Sociedade Broteriana, 27, 1917, pp. 214-215; SIMÕES, Augusto F., Relíquias da Architectura Romano-Byzantina em Portugal e Particularmente em Coimbra, Lisboa, Typ. Portugueza, 1870. Ana Margarida Dias da Silva Maria Teresa Gonçalves portuguesa correspondente Ciências Matemáticas, Físicas e Naturais