Dicionário Histórico-Biográfico da Academia das Ciências de Lisboa

Condorcet Marquês de Marie Jean Antoine Nicolas de Caritat Ribemont, Aisne (França) Bourg la Reine Matemático, economista, filósofo e político. Secretário perpétuo da Academia das Ciências de Paris. Membro da Academia Francesa. Sócio correspondente estrangeiro. Condorcet.png Marquês de Condorcet (1743 – 1794), in https://collections.chateauversailles.fr/#/query/910dea42-9611-47eb-9077-8cad3e823f4a (Acesso: 9.3.2026) ASS_Condorcet.jpg

Órfão de pai muito cedo, fez a sua formação em colégios jesuítas de Reims e de Paris e revelou desde cedo aptidão e interesse pela matemática. Ao longo das décadas de 1760 e de 1770 publicou diversos artigos e livros sobre cálculo diferencial e integral e sobre teoria das probabilidades. Discípulo de d’Alembert, admirador e biógrafo de Voltaire, Condorcet manteve grande proximidade intelectual e política com Anne Robert Jacques Turgot, sobretudo durante o período em que este foi responsável máximo pela organização financeira da monarquia francesa, entre 1774 e 1776. Condorcet foi adjunto de Turgot, na qualidade de inspetor das finanças, e assimilou a modernidade do seu pensamento económico sobre os conceitos de valor, capital e riqueza, assim como as suas orientações em matéria de política económica visando uma menor intervenção do Estado, em benefício da concorrência entre agentes no mercado. Foi ainda neste período que desenvolveu os primeiros trabalhos sobre uniformização de pesos e medidas, tendo em vista a criação do sistema métrico decimal.

Após a queda do ministério Turgot, Condorcet regressou aos temas científicos que moldaram a fase inicial da sua carreira pública. Aplicou os seus conhecimentos matemáticos à análise de problemas de caráter social e político, procurando evidenciar a utilidade da estatística e do cálculo probabilístico em situações de tomada de decisão política. Neste sentido, merece destaque o estudo que publicou em 1785 intitulado Essai sur l'application de l'analyse à la probabilité des décisions rendues à la pluralité des voix e que será, porventura, uma das contribuições históricas mais relevantes para a modelização quantitativa nas ciências sociais e políticas. Condorcet explicou o modo como a agregação de uma pluralidade de preferências individuais conduz a uma situação de impossibilidade de escolha coletiva unânime, impondo-se a adoção da regra do voto maioritário. Esta contribuição de Condorcet (habitualmente referida como “paradoxo de Condorcet”) está na base do desenvolvimento de modelos de decisão e de escolha social ainda hoje usados na teoria económica e na ciência política.

A experiência colaborativa com Turgot foi essencial para as suas tomadas de posição sobre matérias económicas e financeiras após a Revolução de 1789, à qual Condorcet aderiu sem hesitação. Em outubro de 1791 foi nomeado secretário da Assembleia Legislativa, destacando-se os seus discursos em defesa da instrução pública gratuita, universal e laica.

Participou ativamente na esfera pública, com colaboração regular na Bibliothèque de l'homme public (1790-1792), na Chronique de Paris (1792-1793), e no Journal d'instruction sociale (1793). Foi um pioneiro defensor dos direitos políticos das mulheres (designadamente do direito de voto), assim como da abolição da escravatura.

Condorcet foi um dos proponentes da Convenção Nacional em setembro de 1792, alinhando com a fação moderada dos girondinos. No julgamento de Louis XVI manifestou-se contra a pena de morte do rei, o que foi motivo para se tornar alvo a atingir pelo terror jacobino. Refugiou-se durante quase 8 meses na cidade de Paris e arredores, não conseguindo evitar a prisão em 26 de março de 1794, morrendo dois dias depois por causas que ficaram por apurar (morte natural, suicídio ou envenenamento).

Em 1795 foi postumamente publicada a obra que tornaria Condorcet num autor de leitura obrigatória por quem se interessa por temas de filosofia da história. O livro Esquisse d’un tableau historique des progrès de l’esprit humain representa uma tentativa de teorização da evolução histórica do homem e da sociedade, na qual prevalece a noção de aperfeiçoamento constante e progressivo, quer das capacidades intelectuais e morais da natureza humana, quer das possibilidades de eliminação (ou atenuação) da desigualdade entre nações e grupos sociais. Condorcet não se livrou das críticas ao otimismo utópico e demasiado generoso da visão do mundo em que vivia. Mas o seu livro é um bom exemplo da crença iluminista nas possibilidades de melhoramento social e felicidade pública, em larga medida sustentada na obra pioneira de Jean-Jacques Rousseau.

Nicolas de Caritat, marquês de Condorcet, foi casado com Sophie de Grouchy, com quem manteve sólida relação no plano intelectual e político. O seu salão em Paris foi visitado por importantes figuras da França ilustrada e visitantes estrangeiros (entre os quais Thomas Jefferson e Cesare Beccaria), sobretudo no período anterior à Revolução. Sophie traduziu para francês a Teoria dos Sentimentos Morais de Adam Smith.

Condorcet foi, indubitavelmente, uma figura central do Século das Luzes. Cobriu uma ampla variedade de interesses científicos e intelectuais, deixando marcas do seu pensamento inovador em diversos domínios do conhecimento. Além de membro destacado das Academias francesas, Condorcet foi eleito sócio correspondente das Academias de S. Petersburgo, Turim, Estocolmo, Pádua, Berlim e Filadélfia.

A sua eleição como sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa ocorreu em 1788, no ano que antecede a Revolução Francesa, não existindo qualquer registo comprovativo da sua interação com autores portugueses. Tratava-se, decerto, do reconhecimento dos méritos de um matemático ilustre que fora colaborador de Turgot, ministro reformador e esclarecido de Luís XVI. No entanto (conforme destacou Cecília Honório), as suas propostas sobre instrução pública viriam mais tarde a influenciar o Plano de Instrução Pública que Francisco Garção Stockler submeteu, anonimamente, à Academia em 1799. Nele, previa-se a universalização da instrução inicial, a instrução das raparigas e currículos com maior carácter técnico-científico. No topo do edifício estaria a Academia das Ciências com funções de inspeção e coordenação. Este Plano, que polarizou uma disputa entre a Universidade de Coimbra e a Academia das Ciências pela hegemonia no controle da instrução pública, seria rejeitado por esta, baseada no parecer negativo de dois dos seus censores, Joaquim de Fóios e António Ribeiro dos Santos.

Du calcul intégrale, Paris, Imprimerie de Didot, 1765; Essais d’analyse, Paris, Imprimerie de Didot, 1768; “Mémoire sur les équations différentielles”, Mémoires de l’Académie Royal des Sciences de Paris, 1770 (1773), 151-178; Essai sur l'application de l'analyse à la probabilité des décisions rendues à la pluralité des voix, Paris, Imprimerie de Didot, 1785; Vie de M. Turgot, Londres, 1786; Vie de Voltaire, Paris, Imprimerie de la Societé Littéraire-Typographique, 1789; Esquisse d’un tableau historique des progrès de l’esprit humain, Paris, chez Agasse, 1795; Réflexions et notes sur l’education (ed. Manuela Albertone), Napoli, Bibliopolis, 1983; Sur les élections (ed. Olivier de Bernon), Paris, Corpus-Fayard, 1986. AHA – ACL, Processo académico, PT/ACL/ACL/C/001/1788/MJANC; CRÉPEL, Pierre e GILAIN, Christian (orgs.), Condorcet: mathématicien, économiste, philosophe, homme politique, Paris, Minerve, 1989; BAKER, Keith Michael, Condorcet: From Natural Philosophy to Social Mathematics, Chicago, University of Chicago Press, 1975; ROTHSCHILD, Emma, Economic Sentiments: Adam Smith, Condorcet, and the Enlightenment, Cambridge, Mass, Harvard University Press, 2001; HONÓRIO, Cecília, A natureza e o homem nos caminhos do saber e do poder. Francisco Borja Garção Stockler (1759 – 1829), Lisboa, Imprensa Nacional, 2012. José Luís Cardoso francesa correspondente estrangeiro Ciências do Cálculo