Conhecido por antonomásia como o
Era filho do 4º morgado de Mateus, D. Luís António de Sousa Botelho Mourão, Governador e Capitão-general de São Paulo, e de sua mulher D. Leonor de Portugal. Foi administrador do vínculo de Nossa Senhora dos Prazeres da Casa de Mateus, em Vila Real, e dos vínculos da Cumieira, de Moroleiros, de Arroios e de Fontelas, bem como de vários prazos e vasta propriedade não vinculada situada na região de Trás-os-Montes e do Minho.
Casou a primeira vez, em 23.11.1783, com D. Maria Teresa de Noronha (m. 14.6.1785), da Casa de São José, de cuja união nasceu o seu único filho, D. José Luís, futuro 1º conde de Vila Real, título dado por D. João VI. Casou, em 17.2.1802, em segundas núpcias, após autorização régia, com Adélaïde-Marie-Émilie Filleul , escritora, viúva do conde de Flahaut, conhecida nos salões literários parisienses por “Madame de Souza”.
Durante 13 anos, D. José Maria de Sousa serviu a coroa na condição de militar, aos quais se seguiram 14 anos de serviço diplomático, mas foi como o editor d’
Durante 13 anos, D. José Maria de Sousa serviu a coroa na condição de militar, aos quais se seguiram 14 anos de serviço diplomático, mas foi como o editor d’
A educação de D. José Maria foi orientada pela sua mãe D. Leonor de Portugal e pela sua avó materna, D. Maria Antónia de São Boaventura Meneses Paim, filha de Roque Monteiro Paim, na quinta das Laranjeiras, em Lisboa, juntamente com os seus primos, D. Rodrigo de Sousa Coutinho e D. José António de Meneses (futuro Principal Sousa), ambos filhos de Francisco Inocêncio, D. Isabel Juliana, filha de D. Vicente, mais tarde conhecida por “Bichinho de Conta” e o primo afastado D. Alexandre de Sousa Holstein, filho do morgado do Calhariz. Frequentou também o colégio privativo do mestre Guilherme José Bellinge, nas Laranjeiras, onde estudavam os netos do futuro marquês de Pombal e outros pequenos fidalgos.
Aliás, o marquês de Pombal, próximo da família materna de D. José Maria, teria uma influência decisiva na educação do futuro morgado, em dois momentos-chave: o seu ingresso no Colégio dos Nobres, no grupo inaugural de alunos, para o qual recebeu previamente o necessário alvará de moço-fidalgo (23.10.1765) e, depois, a frequência da recém-reformada Universidade de Coimbra.
Em abril-maio de 1773, já com o ano académico a decorrer, vai para Coimbra – recomendado pelo marquês de Pombal ao bispo de Beja para que fosse acolhido no Colégio de São Jerónimo – e inscreve-se na Faculdade de Matemática, a primeira Faculdade do mundo nesta área do conhecimento. Ali seria aluno de José Anastácio da Cunha, professor de Geometria, que considerará como o “homem o mais próximo da perfeição moral que possa achar‑se”. Com José Anastácio, os primos Sousa Coutinho e outros, dinamizou um cenáculo literário, no qual se liam os autores clássicos e os modernos, portugueses e estrangeiros, dedicando especial atenção a Camões. Concluiu a licenciatura em Matemática em 13.3.1778 e, anos mais tarde, dirá numa breve nota autobiográfica que foi “o primeiro fidalgo licenciado em Matemáticas”.
Logo em 1778, alistou-se como cadete no Regimento dos Dragões de Chaves, na arma de Cavalaria, seguindo os exemplos do seu avô paterno e do seu pai que ali tinham prestado serviços. Alcançou sucessivamente os postos de alferes (09.1.1780), tenente (24.3.1784) e capitão (18.1.1785). Em Chaves, as suas preocupações não se cingiam às tarefas militares; fomentava também a leitura entre os soldados e fazia representar peças de teatro para entretenimento do regimento.
A sua dimensão científica e cultural é atestada pela eleição para sócio correspondente da Academia Real das Ciências de Lisboa em 22.5.1780 quando tinha apenas 22 anos.
Em 28.5.1789, foi nomeado alcaide-mor de Bragança e em 11.7.1791 conselheiro do Rei, ficando adido à Primeira Plana da Corte (Estado-Maior do Exército).
Nesse mesmo ano, ingressa na carreira diplomática durante um período extremamente conturbado no qual o Reino se manteve refém das exigências da França expansionista e da Inglaterra na pujança da Revolução Industrial. Foi uma conjuntura complexa, marcada por permanentes “intrigas das camarilhas cortesãs”, expressão cunhada por J. S. da Silva Dias, que a redutora dicotomia entre francófilos e anglófilos não explica.
Em 8.10.1791, já nomeado para a enviatura em Copenhaga, recebeu o hábito de cavaleiro da Ordem de Cristo, distinção com que a Coroa usualmente robustecia o carácter de que iam revestidos os seus diplomatas, possibilitando que D. José Maria doravante fosse conhecido nas cortes europeias como o “Chevalier de Souza”.
Cosmopolita, viajou por toda a Europa convivendo com os grandes vultos das Luzes, presenciando os avanços tecnológicos e científicos do seu tempo, mas também as alterações políticas, registando as suas experiências num diário de viagem que permanece inédito.
Foi, sucessivamente, nomeado para enviado extraordinário e ministro plenipotenciário em Estocolmo (1791-1795) Copenhaga (1797-1799), Paris (1798), Viena (1801), ao Congresso de Amiens (1801), Paris (1802-1805) e São Petersburgo (1804). Por motivos diversos, não chegou a exercer funções em Viena, Amiens e São Petersburgo.
Durante as suas enviaturas diplomáticas, não descurou o avanço do conhecimento científico do reino, enviando livros, mapas e outros instrumentos, dos quais existem abundantes notícias no Arquivo da Casa de Mateus. Em julho de 1802, promoveu as relações entre o Instituto de França e a Academia Real das Ciências de Lisboa, enviando ao secretário desta última, Francisco de Borja Garção Stockler, as “Memórias” daquele Instituto para iniciar uma relação de correspondência “que sirva ao aumento e progresso das Sciencias”.
Dispensado da carreira diplomática em 1805, na sequência de um sombrio episódio político, D. José Maria, que se encontrava em Berlim, foi nomeado para conselheiro da fazenda como remuneração pelos seus serviços (16.6.1805).
Encontrava-se nesta cidade quando recebeu a notícia que tinha sido admitido como sócio livre da Academia Real das Ciências de Lisboa (7.1.1806).
A partir de junho de 1807, fixou residência definitiva em Paris, tendo adquirido o “hôtel” na Grande Rue Verte, no qual animará, com Madame de Souza, um salão literário.
Indignado pelo “esquecimento ingrato da nossa nação” em relação a Camões, lançou-se, então, na preparação da edição de
No inverno de 1813/1814 a fixação do texto estava concluída, tendo consultado dez edições diferentes do poema, desde a edição
A sua intenção foi ilustrar a obra com o retrato do poeta e com uma estampa em cada canto. Através de Alexander von Humboldt, que estava de passagem por Paris, contactou o pintor François Gérard que, para além de assumir a direção artística da obra, pintou o busto de Camões (que ficou enquadrado pela ornamentação do desenhador L. Visconti). Desenne desenharia o segundo retrato de Camões e as estampas para os cantos I, III e IX; e, finalmente, Fragonnard as estampas para os cantos II, IV, V, VI, VII, VIII e X. A abertura das gravuras ficou a cargo de Lignon (2), Forsell, Massard, Oortman (2), Laurent, Bovinet, Pigeot, Forster, Richomme e Toschi, sendo que este último tinha o encargo de retocar as chapas dos colegas e dar autorização para correr a tiragem. O estampador de todas foi Durand. E o editor Firmin Didot, impressor do rei de França”.Todo o trabalho de preparação da edição dos Lusíadas levou quatro anos, mais dezassete meses apenas para a impressão. A despesa da edição perfez a soma de 51.152 francos e 40 cêntimos – pouco menos de metade do valor da avaliação do seu “hôtel” particular na Rue de la Ville-Éveque, próximo à Madeleine, em 1825.
Foram impressos 210 exemplares não venais, destinados a serem distribuídos pelas bibliotecas eruditas e associações científicas de toda a Europa e Brasil, bem como por individualidades de relevo, cujas cartas de agradecimento se conservam no Arquivo da Casa de Mateus. Para si próprio, mandou fazer uma edição única em velino – incorporando o seu próprio retrato e os desenhos originais das gravuras – a qual seria mais tarde primorosamente encadernada em Inglaterra por ordem de D. José Luís de Sousa. O exemplar em velino, bem como as chapas em cobre foram vinculadas à Casa de Mateus.
A distribuição inicia-se em agosto de 1817 e os primeiros exemplares chegam a Lisboa em Dezembro desse mesmo ano.
A Academia Real das Ciências recebe um dos primeiros exemplares, que foi entregue a José Bonifácio de Andrada e Silva, com as recomendações de que a mesma Academia pusesse a concurso um elogio de Camões (um juízo sobre a sua obra lírica e sobre a epopeia), e que a sua obra fosse ensinada nas escolas, tal como se fazia em Itália com “Jerusalém Libertada”, de Tasso, e em Inglaterra com o “Paraíso Perdido”, de Milton.
Em fevereiro de 1818, a Academia Real das Ciências nomeou uma comissão para avaliar a edição, sendo a mesma composta por três membros efetivos: António Caetano do Amaral, diretor da classe de Literatura, Mateus Valente do Couto, diretor da Classe de Ciências Exatas, e Sebastião Francisco de Mendo Trigoso, diretor da Classe de Ciências Naturais. A 12 de abril o relatório estava concluído e três dias depois a Academia reuniu para ouvir a leitura do mesmo: a obra foi amplamente elogiada, e só se encontraram pequenos defeitos sem importância. No entanto, a Comissão criticou as variantes adotadas, a ortografia escolhida e o texto matricial que, no seu entendimento, deveria ter sido o da segunda edição de 1572 (o do exemplar da Biblioteca de Lisboa). O “Relatório” da Academia seria impresso nas “Memórias da Academia” logo em 1818.
O Morgado não aceitou a crítica da Academia e sustentou que a edição tinha sido celebrada um pouco por todo o lado, menos na Academia das Ciências de Lisboa. Não compreendia a composição da Comissão (defendendo que os seus membros não eram especialistas na temática), nem como tinham feito uma crítica em apenas seis semanas a um trabalho que durara 4 anos. D. José Maria respondeu, enviando uma “Carta”, solicitando que a mesma fosse publicada logo após o “Relatório”. A “Carta” só seria editada em 1819.
Em 1819, o morgado concedeu autorização a Didot para imprimir uma edição comum, ilustrada apenas com o retrato de Camões, a fim de ser comercializada.
Para além da polémica com a Academia, o morgado de Mateus teve outros dois dissabores: a “Resenha analytica” publicada por Francisco Solano Constâncio nos “Annaes das Sciencias, das Artes e das Letras”, em 1819, no qual o autor procurou deliberadamente identificar todos os lapsos da edição do morgado; e a edição de pequeno formato, “conforme à l’édition in-4º de 1817”, que Aillaud deu à estampa, em 1823, com apoio de Timóteo Lecussan Verdier, na qual integrou a ortografia e as variantes defendidas pela Academia das Ciências e por Francisco Solano Constâncio. Em agosto de 1823, o Morgado escreveu à Academia de Lisboa informando que o volume tinha sido impresso à sua revelia e que desaprovava todas as alterações que haviam sido introduzidas.
Dedicou-se, ainda, a outros trabalhos relacionados com o poeta: o projeto de um monumento a Camões que gostaria de ver erigido em Portugal; uma medalha de bronze com a efigie do poeta, que mandou cunhar em 1819; e a tradução da epopeia para língua francesa realizada por Jean‑Baptiste Millié em 1825.
Em 1823, D. José Maria lança-se no estudo das “Lettres portugaises” de Soror Mariana Alcoforado publicadas, primeiramente, em 1669, por Barbin. Nesta nova edição, aplica o mesmo método que havia utilizado n’
Morreu no dia 1.6.1825 e foi sepultado no cemitério Pére Lachaise, tendo a sua sepultura o seguinte epitáfio: “Vereis amor da Pátria, não movido/ De premio vil: mas alto e quasi eterno” [Canto I, est. 10, v. 1-2].
O poeta Lemercier lerá uma “Ode à la memoire du comte de Souza”, na sessão pública de 25 de Agosto da Academia Francesa, recordando que “la durée de sa résidence à Paris, en nous faisant apprécier, durant plus de vingt années, la douce communication de ses sentiments et de ses lumières, aggrava dans nos cœurs le pénible regret de sa perte.”
Em 15.08.1965, os seus descendentes procederam à trasladação do seu corpo para a Capela de Nossa Senhora dos Prazeres, na Casa de Mateus, onde atualmente repousa.