Dicionário Histórico-Biográfico da Academia das Ciências de Lisboa

Azeredo Francisco Joaquim de Candelária (Rio de Janeiro) Rio Comprido (Rio de Janeiro) Médico da câmara real e imperial. Sócio correspondente.

Filho do cirurgião Francisco Ferreira de Sousa e de Ângela Maria de Morais. Após aprender nos trópicos a “ler, escrever e contar”, bem como as segundas letras, o adolescente Francisco, apenas com 17 anos de idade e acompanhado pelo seu irmão José Pinto de Azeredo, embarca para a Europa em 1786 com destino a Edimburgo para cursar medicina na prestigiada universidade escocesa.

Durante dois anos letivos completos, 1786/87 e 1787/88, Francisco assistiu a aulas ministradas por reputados médicos e mestres do iluminismo escocês como William Cullen, entre outros, não negligenciando a componente da formação clínica e cirúrgica ministrada extramuros universitários, assistindo a aulas práticas na Royal Infirmary. Foi um aluno aplicado estudando pelas usuais apostilas de então e frequentando também bibliotecas para obter leituras e conhecimentos especializados, nomeadamente em impressos e dissertações manuscritas. Por esta altura foi membro ordinário da Royal Medical Society de Edimburgo, agremiação de estudantes de medicina ainda hoje existente. Permaneceu também algum tempo em Londres, sob o patrocínio de Luís Pinto de Sousa Coutinho, para assistir a lições médicas e a aulas práticas hospitalares.

No segundo trimestre de 1788, Francisco e o seu irmão José rumam a Leiden cujos regulamentos da escola médica permitiam o exame e apresentação/defesa de tese “Pro Gradu Doctoratus, Summisque in Medicina” a candidatos com frequência mínima de dois anos de formação médica em instituições de ensino superior reconhecidas. Não surpreende que, rentabilizando tempo e dinheiro, os irmãos Azeredo tenham aproveitado esta possibilidade até porque o título médico atribuído pela Academia Lugduno-Batava continuava a ser prestigiante. Em 11 de junho de 1788, “Franciscus Joachimus ab Azeredo, Brasiliensis” defendeu publicamente e com sucesso as suas “Theses medicae inaugurales”, conforme registo averbado no livro de atas do Senado da Universidade de Leiden. Do prelo neerlandês dos irmãos Murray e tipografado em latim ficou para a posteridade o único (e hoje raro) impresso médico conhecido da autoria de Francisco Joaquim de Azeredo.

Após a graduação em medicina, Francisco e seu irmão viajaram para Portugal, onde comprovadamente se encontram em inícios de 1789, visando obter o reconhecimento do curso obtido na Universidade de Leiden. A Real Junta do Protomedicato pronuncia-se favoravelmente a 7 de fevereiro desse mesmo ano e, doze dias depois, a rainha determina, através da sua chancelaria-mor, que seja passada carta de médico a Francisco Joaquim de Azeredo. A eleição como sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa ocorre também em 1789, ano em que muito provavelmente embarcou para o Brasil.

Sabe-se que em janeiro de 1791 Francisco Joaquim de Azeredo era já residente e médico no Rio de Janeiro onde, paulatinamente, vai integrar a elite carioca e construir um carreira médica de sucesso no Brasil colonial e imperial dedicando-se, sobretudo, à “arte de conservar a saúde dos príncipes e das pessoas de primeira qualidade”. Permanecem ainda por esclarecer os reais motivos da sua exclusão da lista de membros da Academia das Ciências em maio de 1798; a ausência de produção científica e a inexistência de interação com a Academia serão, porventura, explicações plausíveis.

Em 20 de dezembro de 1809 o então príncipe regente e futuro rei D. João VI nomeia Francisco Azeredo médico efetivo da Real Câmara. Cerca de meio ano depois apresenta-se no cartório da Correição do Cível da Corte, Rio de Janeiro, para, na qualidade de único e universal herdeiro de seu irmão José Pinto de Azeredo falecido em Lisboa havia quase três meses, apresentar justificação de habilitação à herança deixada por este em testamento onde se incluía uma seletiva e importante biblioteca. Nesses autos, Francisco é referido como “médico da câmara de Sua Alteza Real” e é nessa qualidade que, em 1814, assina juntamente com cinco outros médicos um parecer referente a uma consulta da rainha consorte D. Carlota Joaquina.

Após a independência do Brasil e no decurso do Primeiro Reinado (1822-1831), Francisco Joaquim de Azeredo, agora médico da Imperial Câmara, vai vivenciar um período bastante ativo da sua vida profissional. Convive no Paço com a família imperial e na corte relaciona-se com proeminentes membros da aristocracia, do governo e das elites. Como médico e ‘clínico de cabeceira’ participou nas conferências dos médicos que assistiram aos últimos dias da imperatriz consorte do Brasil, Maria Leopoldina, falecida no dia 11 dezembro de 1826. Em 1827 e em 1828 assistiu, pessoalmente ou integrando o coletivo dos médicos do Paço, o príncipe imperial, futuro D. Pedro II, a princesa D. Maria, futura rainha de Portugal, e sua irmã, princesa D. Paula.

Ainda que integrado na Imperial Câmara e aí exercendo a sua profissão num modus operandi frequentemente coletivo, em jeito de junta médica e num sistema corporativo de assunção/diluição de responsabilidades, não restam grandes dúvidas sobre o relevante papel individual do doutor Azeredo. Certamente por isso, e reconhecendo-lhe os competentes e dedicados serviços prestados, o imperador D. Pedro I agracia-o, em 12 de outubro de 1828, com o grau de Comendador da Imperial Ordem de Cristo. Em dezembro de 1829 socorre e assiste o imperador e a sua família na sequência de um conhecido acidente ocorrido com uma carruagem conduzida pessoalmente por D. Pedro I e que provocou significativas mazelas nos ocupantes.

A abdicação de D. Pedro I, em 7 de abril de 1831, marca o fim do Primeiro Reinado e o início de uma nova fase política no Império do Brasil que se estenderá até 23 de julho de 1840, data em que ocorre a efetiva transferência de poder para o príncipe imperial D. Pedro de Alcântara, então com apenas 15 anos de idade mas proclamado formalmente como Imperador Pedro II. Neste espaço temporal de quase uma década, conhecido como Período Regencial, decorre um dos mais conturbados períodos da história brasileira, com disputas de interesses e poderes, rearranjos políticos entre grupos, tensões sociais latentes e ocorrência de rebeliões nas províncias.

Francisco Joaquim de Azeredo – já sexagenário, médico da imperial câmara, comendador, honrado cidadão eleitor e reconhecido patriota – vai, não obstante estas honrarias e predicados, conhecer dissabores na corte regencial. O Paço de São Cristóvão não foi imune a essa conjuntura, fervilhando de intrigas e de manobras palacianas. Os liberais moderados, aliados a uma fação de cortesãos do palácio, vão destituir ou relegar para lugar secundário vários fidalgos e altos funcionários da corte associados ao partido restaurador (caramurus) liderado por José Bonifácio de Andrada e Silva. O doutor Azeredo, amigo íntimo do patriarca da independência do Brasil, integrava o grupo áulico e nesta conjuntura política é exonerado, por despacho de 31 de janeiro de 1834, do serviço na casa imperial.

Desonrosa e amarga para o visado, a exoneração terá sido revertida em algum momento porquanto Azeredo mantinha, volvidos cerca de 4 anos, a qualidade de ‘médico de semana’ da casa imperial, privilégio que incluía entrada franca e aposentadoria no Paço, bem como uma renda anual de 800$000 réis. E é nesta qualidade que não tolerará nova ofensa com eco na sociedade e na imprensa fluminenses da época. Em 6 de janeiro de 1838, num jantar cerimonial no Paço, é alvo de uma decisão polémica do protocolo que o excluiu da mesa imperial onde habitualmente tinha assento; Azeredo interpretou o episódio como desconsideração pessoal e profissional e demitiu-se do seu cargo.

Este incidente protocolar, inserido no contexto político do Período Regencial, mais do que mera intriga palaciana ou afronta pessoal, é de algum modo revelador da ingerência e controlo dos poderes públicos nos domínios privados da família imperial, das intrigas e disputas entre elites e grupos sociais e, também, das dissensões entre discípulos de Esculápio na sociedade fluminense da época. Assumiam, então, acrescida proeminência outros centros de saber e de poder médicos, como a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e a Academia Imperial de Medicina que, de algum modo, concorriam com a corporação dos médicos do Paço. Mesmo entre pares as divisões eram patentes: se houve clínicos que, solidários com Azeredo, ajuizaram a peripécia como desconsideração à classe médica e se demitiram dos seus cargos no Paço, como foi o caso de José Martins da Cruz Jobim, outros tomaram partido pelo poder regencial.

Não obstante a mágoa que o despacho regencial de 1834 decerto lhe provocou e a afronta de que foi alvo no jantar de 1838, o comendador e doutor Francisco Joaquim de Azeredo preservou incólume o seu estatuto e elevado prestígio profissional e social. Logo nos inícios do Segundo Reinado é agraciado por D. Pedro II (despacho da Secretaria de Estado dos Negócios do Império, de 2 de dezembro de 1840) com o Título do Conselho. Dobrados já os 70 anos, o ora conselheiro e médico honorário da Imperial Câmara, terá desfrutado de alguns anos de merecido sossego antes do seu falecimento por apoplexia, em 15 de julho de 1855, na cidade onde nasceu, faltavam pouco menos de quatro meses para completar 88 anos de idade.

Theses Medicae Inaugurales… Pro Gradu Doctoratus, Summisque in Medicina… Franciscus Joachimus ab Azeredo, Brasiliensis,… Lugduni Batavorum: apud fratres Murray, MDCCLXXXVIII [1788]. Processo académico, AH-ACL, PT/ACL/ACL/C/001/1789/FJA; ABREU, Laurinda, “Formações e carreiras médicas em Portugal no tempo de José Pinto de Azeredo, 1764-1810”, História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 28, n. 4, out.-dez. 2021, pp. 919-938; ANTT, Lisboa, Carta de médico passada a Francisco Joaquim de Azeredo [e seu irmão], Chancelaria de D. Maria I, liv. 32, f. 323-323v e 324, 19 fevereiro 1789; COSTA, Júlio, “Um esculápio brasileiro ignorado: contributo para um itinerário biográfico de Francisco Joaquim de Azeredo (1768-1855)”, R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 179 (477), mai./ago. 2018, pp. 15-44; OLIVEIRA, António Braz de, “Do Rio a Lisboa, passando a Luanda: achegas para uma biografia de José Pinto de Azeredo”, in OLIVEIRA, António Braz de, MARQUES, Manuel Silvério (eds.), Ensaios sobre algumas enfermidades de Angola, Lisboa, Colibri, 2013, pp. 153-187; MOLHUYSEN, P.C. (ed.), Bronnen tot de geschiedenis der Leidsche universiteit 1574-1811., v. 6 (1765-1795), Appendix: Catalogus promotorum, pp. 126, [The Hague], Martinus Nijhoff, 1923; PINTO, Manuel Serrano, et al., “O médico brasileiro José Pinto de Azeredo (1766?-1810) e o exame químico da atmosfera do Rio de Janeiro”, História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v. 12, n. 3, 2005, pp. 617-673; SARAIVA, Maria Teresa Monteverde Plantier, “José Pinto de Azeredo na Torre do Tombo: inventário dos bens e outros documentos”, in OLIVEIRA, António Braz de, MARQUES, Manuel Silvério (eds.), Isagoge Patológica do Corpo Humano, Lisboa, Colibri, 2014, pp. 529-633; UNIVERSITY OF EDINBURGH, Matriculation Albums: 1786-180, EUA IN1/ADS/STA/2, December 14th 1786 and December 13th 1787. Júlio Costa brasileira correspondente Ciências