Filho de José Gomes de Amorim e de Mariana Joaquina Bento e oriundo duma família minhota de baixa condição social, Francisco Gomes de Amorim emigra em 1837 para o Brasil (Alenquer, Amazonas), onde vive uma adolescência adversa. Aprende a ler apenas aos 12 anos, o que não o impediu de afirmar, pouco tempo passado, que “A primeira luz, que animou a solidão da minha alma exilada, [tenha sido] produzida pela leitura dos Lusíadas [sic]”, segundo relata o próprio (Garrett. Memórias Biográficas, I, p. 2). É no Brasil, aos 13 anos, num episódio que Amorim reputaria de epifânico, que contacta pela primeira vez com a obra de Almeida Garrett, intelectual de quem viria a tornar-se o mais dedicado discípulo e biógrafo de que há memória. Eis como recorda o acontecimento: “(...) talvez guiado pelo arcanjo da poesia, entrei na modesta residência de uma família indígena; e encontrei lá, aberto, o livro do meu destino, a ordem que me enviava a Providência, para que mais tarde se cumprissem os seus misteriosos desígnios. Era o Camões, o imortal poema de Garrett.” (Garrett..., I, p. 3).
Ainda a partir do Brasil, entabula correspondência com o seu mentor, a qual desencadearia no jovem admirador a decisão de regressar abruptamente a Portugal para com ele privar. Efetivamente, a 22 de março de 1846, embarcaria Gomes de Amorim, 19 anos cumpridos, para Portugal. Tendo viajado diretamente para o Porto, epicentro da contestação ao governo de Costa Cabral nesse ano, chegou a integrar os movimentos populares concentrados no norte do país (participou na Revolta da Maria da Fonte), antes de se fixar em Lisboa em 1847, após a pacificação do território. Uma vez na capital, desempenhou vários cargos que lhe permitiram ascender socialmente. Ficaria conhecido como o “poeta operário”: foi caixeiro, ajudante de escrivão da Pagadoria Geral do Ministério da Marinha (com a graduação de Tenente da Armada Nacional), segundo oficial da Secretaria da Junta Geral da Bula da Cruzada, chegando a conservador da Biblioteca e Museu Naval. Da ascensão social familiar resulta a atribuição, a um sobrinho seu, do título de primeiro barão de A Ver-o-Mar, terra natal que recorda em mais do que uma obra, com destaque para um capítulo inteiro que lhe dedica no romance As Duas Fiandeiras, de 1881.
Como escritor, deixou uma imponente obra dramática estreada em 1851, embora insuficientemente considerada até ao presente pela crítica literária. Destacam-se Ódio de Raça, peça datada de 1854, que foca o drama da escravatura no Brasil e que foi representada, pela primeira vez, no Teatro de D. Maria II com grande êxito, embora apenas publicada em 1869; A Proibição, drama também publicado em 1869 e adaptado para teleteatro em 1959; Aleijões Sociais, que versa sobre o problema da emigração, representado com o título Escravatura Branca e publicado em 1870. Com efeito, uma fatia considerável da obra para teatro de Amorim granjeou reconhecimento imediato em vida do autor, tendo sido encenada e representada à época no Teatro D. Maria II. Assinou ainda alguns títulos em prosa, com destaque para a coletânea Frutos de Vário Sabor, que reúne vários contos do autor, donde sobressaem as “Aventuras de um defunto” (1876), narrativa que versa sobre a história de um cadáver restituído à vida pela fidelidade dum cão.
Gomes de Amorim adentra-se também na poesia com três títulos. Sobressaem os Cantos Matutinos (1858), livro que reúne poemas “avulsos em diversos jornais políticos e literários” (DBP, p. 386). Recebeu a sua poesia, elevada pelo tratamento concedido ao exotismo, à selva brasileira, às tristezas do exílio, à mulher-demónio, cantados através de um estilo coloquial e de inegável influência garrettiana, os louvores de [Rebelo da Silva](https://dhb.acad-ciencias.pt/entrada/?id=LuisAugustoRebelodaSilva) e de [António Feliciano de Castilho](https://dhb.acad-ciencias.pt/pesquisa/?word=Ant%C3%B3nio+Feliciano+de+Castilho), agradados pelo valor literário dos poemas. Gomes de Amorim é ainda autor de um curioso Dicionário de João Fernandes, lições de língua portuguesa pelos processos novos ao alcance de todas as classes de Portugal e Brasil (1878), obra de caráter jocoso que ambiciona cruzar o entretenimento com a instrução. Foi, já na etapa final da vida, o responsável por uma edição d’ Os Lusíadas de Luís de Camões expurgados de erros que nunca tinham sido corrigidos e restituídos ao texto primitivo (1889).
Cumpre destacar os três tomos da biografia de Almeida Garrett, magnum opus de Gomes de Amorim que ainda hoje é referência incontornável para qualquer garrettianista (Garrett: Memórias Biográficas [1881-1884]). Aqui, não só narra com devoção e detalhe a trajetória vital do poeta a quem escolheu dedicar-se, como também os seus últimos suspiros, pois a Amorim coube assistir e acompanhar Almeida Garrett nos seus derradeiros momentos. Intui-se assim que, para o autor, Garrett e Camões se cruzam numa espécie de fatum pelo qual este foi abençoado, chegando a afirmar que “O mesmo destino, que me trouxe aos braços do maior poeta português moderno [Garrett], chamado por este para vir fechar-lhe os olhos e escrever-lhe a vida [Memórias Biográficas], me guiou, ainda que com menos confiança, na ímproba tarefa de melhorar o maior poeta português antigo [Camões] (...)” (“A Albino Leite de Campos”, introdução a Os Lusíadas..., [s.p.]).
Por fim, sob os pseudónimos Fiera-mosca e Hoffmann, assinou interessantes artigos de crítica teatral na imprensa da época. Tais colaborações, somadas às relações de amizade que manteve com eruditos como o já referido [Almeida Garrett](https://dhb.acad-ciencias.pt/entrada/?id=JoaoBaptistadaSilvaLeitaodeAlmeidaGarrett), mas também [Alexandre Herculano](https://dhb.acad-ciencias.pt/entrada/?id=AlexandreHerculanodeCarvalhoeAraujo), [Oliveira Martins](https://dhb.acad-ciencias.pt/entrada/?id=JoaquimPedrodeOliveiraMartins) ou o francês [Ferdinand Denis](https://dhb.acad-ciencias.pt/pesquisa/?word=Ferdinand+Denis), confirmam a integração plena de Gomes de Amorim nas primeiras fileiras da vida intelectual portuguesa (e não só) do século XIX.
O protagonismo intelectual de Amorim afere-se ainda pelas inúmeras afiliações a instituições académicas de máximo prestígio, tanto a nível nacional como internacional, entre as quais se contam: o Instituto de Coimbra; a Academia Real das Ciências da Bélgica; a Real Academia Espanhola da Língua (foi por esta laureado com a medalha de ouro no concurso internacional de poesia no segundo centenário da morte de Calderón de la Barca); a Academia Real de Historia de Madrid; o Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico do Brasil, etc. No centenário da sua morte, em 1991, promoveram-se alguns atos comemorativos públicos por iniciativa da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim.
Do seu percurso na ACL, cabe assinalar que foi eleito sócio correspondente da classe de Ciências Morais, Políticas e Belas Letras desde 28 de janeiro de 1858 até à data da morte. Foi galardoado, pela ACL, com o prémio Dom Fernando, em reconhecimento do valor da obra Memórias Biográficas.